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30 Dec 2012

Feliz 2013!

Foto: Magnolia Brussi
Quero, terei - Se não aqui, 
Noutro lugar que ainda não sei.
Nada perdi.
Tudo serei.

Fernando Pessoa



3 May 2012

Navegar é preciso

Navegar é preciso; viver não é preciso.

Foto: Magnolia Brussi
Quero para mim o espírito desta frase, 
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário;
o que é necessário é criar.'

Fernando Pessoa 

23 Mar 2012

Banheiro Sagrado

É a terceira casa de amiga brasileira que visito na Europa que tem retrato de santo no banheiro. A primeira casa foi na Itália, a segunda em Portugal e a terceira na Suíça. 

Não resisti e perguntei pra dona da última casa:

”- Amiga, você é meio punk. Como é que me explica esses santinhos em sua casa?


-  Ah, sei lá!

Pensou mais um pouco e respondeu:



-  Vai ver é porque a gente cresce rodeada de crenças no Brasil. O santinho me leva lá pra igrejinha do interior, pra casa da avó, entende?

- E porque não pendura na sala?

- Na sala ficaria tudo muito exposto e representaria algo que não é verdade pois não sou católica, tampouco tenho religião.  No banheiro a foto do santo é uma decoração.

- Mas e aí, você conversa com os santinhos?

- Claro, troco a maior ideia com eles. Mas não conta pra ninguém, viu?”

É claro que eu iria contar pra vocês. E lógico que a dona da casa me autorizou a mostrar as fotos aqui. O resto é imaginação.

Eu já achava que o banheiro era um lugar cheio de segredos. Depois dessa, começo a achar que o banheiro é o lugar mais sagrado na casa da gente.

E você? O que acha de santinho pendurado no banheiro? Na sala? No quarto?

21 Feb 2012

Modulightor

Parece até engraçado o que vou escrever: o arquiteto americano Paulo Rudolph acreditava em festas. Suas casas são uma evidência de sua sociabilidade.  

Paul Rudolph (1918-1997) não se preocupava só com o exterior de suas obras. Para ele era importante a interação das pessoas dentro da casa. Rudolph encarava como função arquitetônica o incentivo à conversação.
As casas que construiu são minimalistas mas não frias. Elas contém tipos de ambientes que devem ser fotografados com gente dentro. 
Não é a toa que elas foram palco de grandes festas dos intelectuais e artistas nos anos 80 e 90. 
Dizem até que Liza Minelli caiu na escada de uma delas.
Vou falar aqui da Modulightor, em Nova Iorque, umas das últimas casas que ele construiu, no começo dos anos 90.
Por fora, a casa mostra suas vigas em I, afinal foi construída com influências do brutalismo, tendência que privilegiava a verdade estrutural das edificações, nunca escondendo vigas ou pilares. 
A casa é uma grande orquestra de luz, com materiais refletindo luzes e amplas janelas. As vigas, dispostas em diferentes níveis, formam janelas de diferentes tamanhos. 

Decoração e iluminação interiores enfeitam a arquitetura exterior.E dentro da casa, ah meu amigo, e dentro da casa a brincadeira continua. Escadarias e prateleiras imitam as vigas da parte exterior. Os finos degraus das escadas visualmente se confundem com as prateleiras. Todos elementos ecoam material, forma e cor.
Essa construção de quatro andares é uma lição em transparência,as escadas não tem corrimão, são formadas por finas placas de mármore e sustentadas simplesmente por uma estrutura de aço. 
A empregada de Paul morria de medo de descer por essas escadas.
Há passagens transparentes, onde o chão é de acrílico, permitindo o olhar curioso do ocupante do andar inferior.
A casa, além de ser o lar do arquiteto, serviu de cobaia para seus experimentos: foi construída em três anos mas Rudolph estava sempre experimentando um novo material aqui e ali. Até o fim de sua vida, em 1997.
Há uma notável ausência de móveis no apartamento. Para Rudolph, móveis eram elementos arquitetônicos. Então armários, assentos, estantes e prateleiras são todos embutidos. 
Interessante também é a escolha dos objetos que decoram a casa e a maneira de dispô-los. Rudolph colecionava arte indígena e adorava suvenires. 

Então, esculturas africanas e pequenas figuras fazem parte da decoração. Colocando-as uma ao lado da outra e em grande quantidade, os objetos se tornam um só. 
Há uma mesa repleta de chaves antigas que ele comprou na Turquia. Uma coleção de robôs de brinquedo é exposta num painel que se estende por dois andares do apartamento. 
Um outro painel contém centenas de figuras mexicanas (mexican milagros) que o excêntrico arquiteto comprou em frente a Catedral da Cidade do México. A disposição desses objetos iguais, um do lado do outro, dá a impressão de uma única obra de arte. Engraçado né, até os objetos ele integrava.

Paul Rudolph nasceu em Kentucky em 1918 e estudou na Harvard, onde foi aluno de Walter Gropius. Mas seu estilo foi além do modernismo. Ele começou a carreira desenhando casas na Flórida, onde foi um dos expoentes do Sarasota Modern , o estilo da arquitetura pós-guerra que emergiu na Flórida.
A fama iria levá-lo para Nova Iorque e à outras partes do país e do mundo, erguendo prédios  como o Yale Art e Architecture Building, uma das construções brutalistas mais conhecidas em todo o mundo. 
Quando o brutalismo saiu de moda nos Estados Unidos, o arquiteto americano foi para a Ásia, onde construiria arranha-céus.

Descomprometido, egocêntrico e versátil, dizia: “Arquitetura é um esforço pessoal, e quanto menos pessoas entre você e seu trabalho, melhor “.
A casa Mudolightor é hoje um museu. O térreo do prédio ainda  é ocupado pela companhia de luminárias que ele fundou. Quando a visitei, em setembro de 2011, a casa estava em reforma.

Fotos: Revista Modulightor e Revista Florida Designers Review